Um blog do Travellerspoint

No fundo do poço ainda há lama

Dia 21/01

A noite foi estranha, estão dizendo que o hotel no qual ficamos é assombrado. Com ou sem fantasmas, parece que meu sono foi mais leve do que o normal. A Juliana, minha colega de quarto, teve um pesadelo no meio da noite, eu acordei, a acordei no intuito de tirá-la do pesadelo, mas depois ela não conseguiu mais dormir e ficou o restante da noite acordada. Isso me induziu a mais uma reflexão sobre ajudar o outro.
Ao ajudar alguém, a intenção pode ser a mais nobre de todas, mas muitas vezes não é bem aquele tipo de ajuda que se faz necessário, e ao invés de ajudar, atrapalha. Não acho que tenha atrapalhado a minha colega, porque afinal de contas um pesadelo é tão ruim quanto não conseguir dormir (ao meu ver, é claro).

Saímos de Pelotas às 7:40 da manhã em direção ao nosso primeiro destino, Pinheiro Machado. Uma cidade pequena, simpática e seca, muito seca. Fomos à Prefeitura Municipal para encontrar o vice-prefeito e coordenador da defesa civil municipal, Sr. José Antônio, um homem simples, humilde e extremamente preocupado com os agricultores, cuja maioria vive de agricultura familiar e alguns de subsistência. Ele nos explicou que nos últimos dois anos, o município declarou 3 vezes estado de emergência, sendo que dois pela seca e um pela chuva.
Em um lugar aonde as pessoas não tem sequer um reservatório de água. Quando os caminhões pipa chegam para entregar água, muitos tem somente um balde. Um balde!

Primeira pessoa que encontramos na seca foi o seu Amaro, um senhor de muita fibra, indicado pelo vice-prefeito para conversar conosco. Fomos recebidos por inúmeros cachorros, todos lindos e muito bem cuidados, o que nesta região e com a dificuldade atual só pode significar muito amor. Gatinhos filhotes correm ao lado de sua casa, e ovelhas buscam sombra debaixo de uma árvore. A paisagem seria bucólica se ele não estivesse sem água nos poços, açude e água encanada é luxo. Suas vacas não podem se alimentar direito porque não há mais pasto, e com isso não se reproduzem mais, e quando isso não acontece, elas não dão leite no inverno, o que vai fazer do problema uma crise mais séria do que se pensa. Ele diz que tem 67 anos e nunca fez nenhum inimigo, mas é reclamador, e exige das autoridades a satisfação dos seus direitos. Com vacas magras, mas muito magras, seu Amaro é forçado a comprar ração, e assim gastar o dinheiro que não tem. Sua horta secou, e agora tem que comprar também hortaliças, que por sua vez estão cada vez mais raras e mais caras. Apesar de tudo, ele nos convidou para almoçar e dividir com ele o pouco que tinha, e nós com horário apertado, tivemos que recusar. Ao sair, lastimei muito sua situação e desejei, honestamente, que chovesse logo.

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Com uma pequena chuva insuficiente para irrigar o campo, mas verdejar os pastos, saímos em busca de uma situação ainda pior, com o chão craquelado e carcaças de animais mortos, talvez até mães aos prantos. Que triste pensar que o seu humano só pensa no outro quando extremos terríveis o atingem ou quando a imprensa resolver fazer do sofrimento notícia e dinheiro. Genocídio, guerra civil, miséria ou doenças são relevantes, mas pessoas que só não tem água potável encanada não. Nós mesmos dependemos disso para que assuntos sérios tornem-se relevantes nas mentes dos brasileiros, mesmo que só por uma semana. Uma criança em situação de risco não é notícia e não move, mas uma mãe em frente às câmeras aos berros é.

Tudo bem, se assim que a vida funciona, seguimos em frente atrás de mais imagens. Chegamos em Hulha Negra, aonde nos encontramos com o prefeito e o vice-prefeito. Eles estavam em meio ao processo de montagem das cestas básicas enviadas pela defesa civil, processo este que deu errado por diversos motivos: falha de comunicação entre as autoridades locais que não chamaram pessoas para compor o mutirão, calor extremo, e para completar, os alimentos foram enviados em sacos de 15Kg, sem possibilitar a distribuição imediata, e a secretária de assistência social teve que comprar sacolas plásticas no supermercado para poder distribuí-la. Chego à conclusão que todos serão afetados, mas os pobres sempre sofrerão mais.

Publicado por kittennick 18:25 Comentários (0)

Vaca Atolada

Pinheiro Machado, Ulha Negra, Bagé

A noite foi estranha, estão dizendo que o hotel no qual ficamos é assombrado. Com ou sem fantasmas, parece que meu sono foi mais leve do que o normal. A Juliana, minha colega de quarto, teve um pesadelo no meio da noite, eu acordei, a acordei no intuito de tirá-la do pesadelo, mas depois ela não conseguiu mais dormir e ficou o restante da noite acordada. Isso me induziu a mais uma reflexão sobre ajudar o outro.
Ao ajudar alguém, a intenção pode ser a mais nobre de todas, mas muitas vezes não é bem aquele tipo de ajuda que se faz necessário, e ao invés de ajudar, atrapalha. Não acho que tenha atrapalhado a minha colega, porque afinal de contas um pesadelo é tão ruim quanto não conseguir dormir (ao meu ver, é claro).

Saímos de Pelotas às 7:40 da manhã em direção ao nosso primeiro destino, Pinheiro Machado. Uma cidade pequena, simpática e seca, muito seca. Fomos à Prefeitura Municipal para encontrar o vice-prefeito e coordenador da defesa civil municipal, Sr. José Antônio, um homem simples, humilde e extremamente preocupado com os agricultores, cuja maioria vive de agricultura familiar e alguns de subsistência. Ele nos explicou que nos últimos dois anos, o município declarou 3 vezes estado de emergência, sendo que dois pela seca e um pela chuva.
Em um lugar aonde as pessoas não tem sequer um reservatório de água. Quando os caminhões pipa chegam para entregar água, muitos tem somente um balde. Um balde!

Não vou conseguir terminar este post agora, mas vou continuar assim que conseguir parar de novo, obrigada por ler. Mas o blog do greenpeace tem algumas coisas sobre a viagem também. Continuo assim que dermos mais uma parada, obrigada por ler.

Blog do Greenpeace

Publicado por kittennick 0:51 Comentários (0)

Testemunhando a barbárie

Greenpeace foi fundado por diversas pessoas interessantes, que em sua maioria tinham ideais bem parecidos com os meus.
Um deles, Jim Bohlen, um quacker canadense, trouxe para o grupo e para consequentemente para a organização a idéia também quacker de além de se praticar a cultura de paz, amor e respeito, exercita-se o tal do servir de testemunha. Esta ainda é uma das funções do nosso trabalho no Greenpeace, e às vezes não se pode impedir que barbáries aconteçam, mas ao menos testemunhamos e mostramos para o mundo. Assim, passo a passo, muda-se o horror.
Em princípio, exercitaram o testemunhar com a matança das baleias, depois testes nucleares e suas horríveis consequências. Testemunharam fatos terríveis e protestaram contra eles. Com grande admiração conto esta pequena parte da história das pessoas que transformaram um ideal e o colocaram em prática, sem titubear, sem pensar em ganhos pessoais. Era algo que tinha que ser feito e foi.
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Com este espírito de servir de testemunhas e com o intuito de coletar informações sobre mudanças climáticas e seus impactos nas vidas, economia, ecossistemas e plantações, saí de São Paulo hoje em direção ao Rio Grande do Sul para ver a estiagem terrível que assola a região de Rio Grande a Santana do Livramento.
Não temos uma agenda fixa ainda, mas sabemos que vamos ficar aqui um tempo, e depois vamos para o Rio de Janeiro para acompanhar as chuvas e a enchente.

Tenho que confessar que a idéia de testemunhar o sofrimento do próximo me deixou um tanto nervosa pela manhã. Apesar de concordar com o conceito, é uma missão dura e questionável em alguns aspectos. Durante a viagem tentei resgatar da memória tudo que aprendi na Áustria e todas as reflexões pessoais que lá eu tive.

A barbárie que acontece, tanto no Rio de Janeiro quanto no Rio Grande do Sul, tem diversas influências humanas, a começar pela ocupação irregurar estimulada por autoridades locais, mas ronda também a pobreza extrema, emissão de gases de efeito estufa, desmatamento dentre outros. Acho que isso é o mais difícil de lidar. Muito mais do que a desgraça acidental, ou que alguém pudesse chamar de destino ou vontade de Deus.

No aeroporto encontrei a Juliana, uma carioca do departamento de comunicação, e juntas voamos para Porto Alegre. O voo foi tranquilo, e aproveitamos para ler todos os jornais possíveis e imagináveis e nos atualizarmos do que acontece no mundo além Greenpeace.

Em Porto Alegre encontramos um gaúcho responsável pela logística, o câmera (Todd, um canadense casado com uma brasileira, e que mora no Brasil há 12 anos) e o fotógrafo (Lunaé, um menino gaúcho que mora em Salvador), todas pessoas muito legais mesmo. Um time super agradável. Aos poucos percebo que além da agradabilidade das pessoas, ter gaúchos e cariocas por perto será muito importantes na nossa jornada.

De Porto Alegre pegamos um avião minúsculo da NHT, uma companhia aérea gaúcha, e sobrevoamos o Rio Grande do Sul até Rio Grande.
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E esse era o nosso comandante.
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De Rio Grande, alugamos um carro e viemos até Pelotas. Após reuniões e mais reuniões para definirmos o plano e a logística, fomos jantar em um japonês.
Pelo pouco que vi de Pelotas, é uma cidade bonitinha, com muitas construções coloniais, reformadas e conservadas. Se o pouco que vi representar mesmo a cidade, Pelotas está de parabéns pela forma como trata sua herança histórica e arquitetônica.
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Amanhã saímos às 7:30 em direção à Pinheiro Machado para aproveitar o maior tempo de luz natural possível. Mal vejo a hora.
Vagarosamente o nervoso passa, e a vontade de fazer algo que possa ser relevante para as pessoas que vamos encontrar no caminho cresce.
Lembro dos budistas que quando fazem um bem para alguém, o dedicam para todos os seres vivos, e assim tiram isso de dentro deles, evitando um ego inflado. Ótimo exercício para engrandecimento da alma.

Juliana já dormiu e agora no escuro, a tela brilhante do computador atrai todos os insetos de Pelotas. Vou desligar.

Boa noite.

Publicado por kittennick 17:20 Comentários (0)

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