No fundo do poço ainda há lama
Dia 21/01
24.01.2011
A noite foi estranha, estão dizendo que o hotel no qual ficamos é assombrado. Com ou sem fantasmas, parece que meu sono foi mais leve do que o normal. A Juliana, minha colega de quarto, teve um pesadelo no meio da noite, eu acordei, a acordei no intuito de tirá-la do pesadelo, mas depois ela não conseguiu mais dormir e ficou o restante da noite acordada. Isso me induziu a mais uma reflexão sobre ajudar o outro.
Ao ajudar alguém, a intenção pode ser a mais nobre de todas, mas muitas vezes não é bem aquele tipo de ajuda que se faz necessário, e ao invés de ajudar, atrapalha. Não acho que tenha atrapalhado a minha colega, porque afinal de contas um pesadelo é tão ruim quanto não conseguir dormir (ao meu ver, é claro).
Saímos de Pelotas às 7:40 da manhã em direção ao nosso primeiro destino, Pinheiro Machado. Uma cidade pequena, simpática e seca, muito seca. Fomos à Prefeitura Municipal para encontrar o vice-prefeito e coordenador da defesa civil municipal, Sr. José Antônio, um homem simples, humilde e extremamente preocupado com os agricultores, cuja maioria vive de agricultura familiar e alguns de subsistência. Ele nos explicou que nos últimos dois anos, o município declarou 3 vezes estado de emergência, sendo que dois pela seca e um pela chuva.
Em um lugar aonde as pessoas não tem sequer um reservatório de água. Quando os caminhões pipa chegam para entregar água, muitos tem somente um balde. Um balde!
Primeira pessoa que encontramos na seca foi o seu Amaro, um senhor de muita fibra, indicado pelo vice-prefeito para conversar conosco. Fomos recebidos por inúmeros cachorros, todos lindos e muito bem cuidados, o que nesta região e com a dificuldade atual só pode significar muito amor. Gatinhos filhotes correm ao lado de sua casa, e ovelhas buscam sombra debaixo de uma árvore. A paisagem seria bucólica se ele não estivesse sem água nos poços, açude e água encanada é luxo. Suas vacas não podem se alimentar direito porque não há mais pasto, e com isso não se reproduzem mais, e quando isso não acontece, elas não dão leite no inverno, o que vai fazer do problema uma crise mais séria do que se pensa. Ele diz que tem 67 anos e nunca fez nenhum inimigo, mas é reclamador, e exige das autoridades a satisfação dos seus direitos. Com vacas magras, mas muito magras, seu Amaro é forçado a comprar ração, e assim gastar o dinheiro que não tem. Sua horta secou, e agora tem que comprar também hortaliças, que por sua vez estão cada vez mais raras e mais caras. Apesar de tudo, ele nos convidou para almoçar e dividir com ele o pouco que tinha, e nós com horário apertado, tivemos que recusar. Ao sair, lastimei muito sua situação e desejei, honestamente, que chovesse logo.

Com uma pequena chuva insuficiente para irrigar o campo, mas verdejar os pastos, saímos em busca de uma situação ainda pior, com o chão craquelado e carcaças de animais mortos, talvez até mães aos prantos. Que triste pensar que o seu humano só pensa no outro quando extremos terríveis o atingem ou quando a imprensa resolver fazer do sofrimento notícia e dinheiro. Genocídio, guerra civil, miséria ou doenças são relevantes, mas pessoas que só não tem água potável encanada não. Nós mesmos dependemos disso para que assuntos sérios tornem-se relevantes nas mentes dos brasileiros, mesmo que só por uma semana. Uma criança em situação de risco não é notícia e não move, mas uma mãe em frente às câmeras aos berros é.
Tudo bem, se assim que a vida funciona, seguimos em frente atrás de mais imagens. Chegamos em Hulha Negra, aonde nos encontramos com o prefeito e o vice-prefeito. Eles estavam em meio ao processo de montagem das cestas básicas enviadas pela defesa civil, processo este que deu errado por diversos motivos: falha de comunicação entre as autoridades locais que não chamaram pessoas para compor o mutirão, calor extremo, e para completar, os alimentos foram enviados em sacos de 15Kg, sem possibilitar a distribuição imediata, e a secretária de assistência social teve que comprar sacolas plásticas no supermercado para poder distribuí-la. Chego à conclusão que todos serão afetados, mas os pobres sempre sofrerão mais.
Publicado por kittennick 18:25 Comentários (0)




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