Testemunhando a barbárie
20.01.2011
Greenpeace foi fundado por diversas pessoas interessantes, que em sua maioria tinham ideais bem parecidos com os meus.
Um deles, Jim Bohlen, um quacker canadense, trouxe para o grupo e para consequentemente para a organização a idéia também quacker de além de se praticar a cultura de paz, amor e respeito, exercita-se o tal do servir de testemunha. Esta ainda é uma das funções do nosso trabalho no Greenpeace, e às vezes não se pode impedir que barbáries aconteçam, mas ao menos testemunhamos e mostramos para o mundo. Assim, passo a passo, muda-se o horror.
Em princípio, exercitaram o testemunhar com a matança das baleias, depois testes nucleares e suas horríveis consequências. Testemunharam fatos terríveis e protestaram contra eles. Com grande admiração conto esta pequena parte da história das pessoas que transformaram um ideal e o colocaram em prática, sem titubear, sem pensar em ganhos pessoais. Era algo que tinha que ser feito e foi.
Com este espírito de servir de testemunhas e com o intuito de coletar informações sobre mudanças climáticas e seus impactos nas vidas, economia, ecossistemas e plantações, saí de São Paulo hoje em direção ao Rio Grande do Sul para ver a estiagem terrível que assola a região de Rio Grande a Santana do Livramento.
Não temos uma agenda fixa ainda, mas sabemos que vamos ficar aqui um tempo, e depois vamos para o Rio de Janeiro para acompanhar as chuvas e a enchente.
Tenho que confessar que a idéia de testemunhar o sofrimento do próximo me deixou um tanto nervosa pela manhã. Apesar de concordar com o conceito, é uma missão dura e questionável em alguns aspectos. Durante a viagem tentei resgatar da memória tudo que aprendi na Áustria e todas as reflexões pessoais que lá eu tive.
A barbárie que acontece, tanto no Rio de Janeiro quanto no Rio Grande do Sul, tem diversas influências humanas, a começar pela ocupação irregurar estimulada por autoridades locais, mas ronda também a pobreza extrema, emissão de gases de efeito estufa, desmatamento dentre outros. Acho que isso é o mais difícil de lidar. Muito mais do que a desgraça acidental, ou que alguém pudesse chamar de destino ou vontade de Deus.
No aeroporto encontrei a Juliana, uma carioca do departamento de comunicação, e juntas voamos para Porto Alegre. O voo foi tranquilo, e aproveitamos para ler todos os jornais possíveis e imagináveis e nos atualizarmos do que acontece no mundo além Greenpeace.
Em Porto Alegre encontramos um gaúcho responsável pela logística, o câmera (Todd, um canadense casado com uma brasileira, e que mora no Brasil há 12 anos) e o fotógrafo (Lunaé, um menino gaúcho que mora em Salvador), todas pessoas muito legais mesmo. Um time super agradável. Aos poucos percebo que além da agradabilidade das pessoas, ter gaúchos e cariocas por perto será muito importantes na nossa jornada.
De Porto Alegre pegamos um avião minúsculo da NHT, uma companhia aérea gaúcha, e sobrevoamos o Rio Grande do Sul até Rio Grande.
E esse era o nosso comandante.
De Rio Grande, alugamos um carro e viemos até Pelotas. Após reuniões e mais reuniões para definirmos o plano e a logística, fomos jantar em um japonês.
Pelo pouco que vi de Pelotas, é uma cidade bonitinha, com muitas construções coloniais, reformadas e conservadas. Se o pouco que vi representar mesmo a cidade, Pelotas está de parabéns pela forma como trata sua herança histórica e arquitetônica.
Amanhã saímos às 7:30 em direção à Pinheiro Machado para aproveitar o maior tempo de luz natural possível. Mal vejo a hora.
Vagarosamente o nervoso passa, e a vontade de fazer algo que possa ser relevante para as pessoas que vamos encontrar no caminho cresce.
Lembro dos budistas que quando fazem um bem para alguém, o dedicam para todos os seres vivos, e assim tiram isso de dentro deles, evitando um ego inflado. Ótimo exercício para engrandecimento da alma.
Juliana já dormiu e agora no escuro, a tela brilhante do computador atrai todos os insetos de Pelotas. Vou desligar.
Boa noite.
Publicado por kittennick 17:20






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